cenas que valem a cama, dramas que valem a cena, e pessoas que não valem a pena.

(travecolibertino)

Relatos de um homem sem forma:

De qualquer forma, me sinto desfocado. Quase deslocado de onde eu deveria estar, ou de onde eu queria; ou deveria querer. Estou na forma de algo que não sei o que é. Mas de qualquer forma, me sinto sem forma. Na norma formal, me sinto como uma frase sem sujeito, ou sem concordância verbal, ou com erros gramaticais. De qualquer forma, estou sem forma. Mas na forma de algo sem forma, que não se sabe a forma nem mesmo como ele conseguiu essa norma para ficar sem forma. Normalmente, me sinto sempre formado, mas hoje estou formado em algo sem forma, que me dá forma na norma geral de um ser sem forma. Estou desfocado, mas de qualquer forma, estou numa forma informal de não ter forma alguma.”

D C Monroe

(Source: o-jornalista)


" Eu ando sem paciência pro mundo. Rastejo, talvez. Não me importa mais se a caneta cai embaixo da cama porque ela continuará ali. Mantenho meus joelhos esticados em cima da cama. Não me importa mais o furo na carteira, o espelho fora do lugar, a mochila jogada em algum universo paralelo. As moedas atrás do sofá já formaram um real, e as cédulas foram pra máquina de lavar. A pasta juntou poeira. A lixeira anda cheia de papéis, quase como um porta-joias que pra mim, só pra mim, perderam o valor, enchendo as baratas com a poesia que perdi a vontade de apagar. Não me importa se faz frio, calor, se a janela fica aberta em dia de chuva, se como frango ou como peixe. O relógio ainda está atrasado. Ou adiantado, porque não lembro qual foi a última hora que me interessou. A folha do calendário ainda não foi rasgada, por mim ainda estaríamos em janeiro de um ano promissor. O marcador laranja daquele livro ainda está fincado no prefácio. Eu não entendo as piadas, não troquei as pilhas do controle remoto, não quis saber o que tinha na geladeira, não cumprimentei o rapaz que trabalha no caixa da padaria. Ele também esqueceu de sorrir pra mim. E eu esqueci de reclamar. O troco ficou com ele. De novo. O dinheiro que me pediram emprestado eu nunca liguei de cobrar. A música que parei na metade ainda não teve tempo de terminar. As maçãs do rosto apodreceram, eu sorrio sem pensar. Sorriso quebrado… E eu sem tempo pra consertar. Eu confundo mocinho com vilão, eu nunca mais assisti televisão. Eu não sei do que as pessoas falam e também já não sei o que falar. Eu não sei das pessoas, porque as pessoas não sabem de mim. Ou nunca souberam e eu não quis me importar. O celular tem três novas mensagens, mas foi um plano que eu esqueci de cancelar. Cansei de pegar o mesmo caminho de volta pra casa. Meu retorno não tem becos, mas não tem saída. Nunca teve um ladrão pra me assaltar. Talvez assim eu tivesse morrido, sem que eu implorasse pra alguém me matar. Mas eu não quero morrer. Eu nunca quis saber desse negócio de morrer, aliás. Eu não tenho paciência pra velório, eu nunca sei o que usar. "
“Charles Bukowski.”

“Depois de um casamento infeliz decidi, bem, que se dane, que podia mesmo ser um escritor, isso parecia ser a escolha mais fácil, você diz qualquer coisa que der na telha e eles dizem, ei, isso é bom, você é um gênio. Por que não ser um gênio? Existem tantos gênios medíocres. Então me tornei um gênio.”

(Source: c-a-n-a-r-i-o, via lareando)


" E já não eram sós, ambos somavam entre si, não importava mais quem era a primeira ou a segunda pessoa, por que eles eram um só, e todos questionavam-se sobre quem seria o sujeito e quem seria o predicado. Quem se conjugaria no pretérito e quem renunciaria, ou seria, a forma “mais que perfeita”. Conjugavam-se de maneira irregular explicitando suas diferenças, reconhecendo os fragmentos e os complementos. Buscavam a medida certa. E assim, reconheceram-se juntos, sem necessidade de mais nada para se completar, por que juntos, eles transbordavam. "
" eu sou assim. as pessoas falam de mim, eu já respondo com um “eu sou assim”. e dane-se. eu estou precisando dessa redução. eu quero abreviar tudo com um “eu sou assim”. briga de casal, a partir de hoje, já estão todas resolvidas, antes mesmo de começarem. estão póstumas. se reclamarem que falo baixo - pode não parecer, mas eu falo baixo -, eu só respondo com um muito baixo “eu sou assim”. e pronto. vai cada um pro seu canto. uma das regras primordiais da vida é a satisfação mútua. eu lavo a sua mão e você lava a minha. mas a regra deve ser assim: equânime. não vale limpar a bunda de alguém que está apenas disposta a lavar as suas mãos. infelizmente, nos dias de hoje, as coisas estão assim: muitos lavadores de bundas e poucos de mãos. tem que ver isso aí. pois essas coisas não podem ficar assim. a única coisa que deve permanecer assim, no meio de todo esse tumulto, não é uma coisa, mas um indivíduo, assim, como eu. no meio da ebulição, uma pequena bolha de permanência: um eu assim. e deixem-me, porque eu sou assim. "
" Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis. "
" vinte centavos aqui. vinte centavos lá. tanto faz. a verdade é que ninguém aguenta mais. é roubalheira, sacanagem, corrupção, mais sacanagem, e tudo com o dinheiro do povão. porra, o povão quer sacanagem também. já que o dinheiro é dele. então é por causa dos vinte centavos, sim. essa quantia irrisória que explodiu nas cabeças das elites, que estão com medo. ô se tão. por causa de vinte centavos. porque é vinte centavos aqui, mas depois serão outros vinte centavos e muito outros depois (infinitos vinte centavos); o povo não tem tantos vinte centavos pra dar e vender assim. o povo quer mais. o povo prefere a solidão das trincheiras urbanas. aquela solidão que a Globo quer fingir que é ensaiada, mas não é não. isso é improviso puro. improviso de solidão em massa. porque o povo está solitário. e puto da vida. a elite deveria dar mais atenção à teoria do caos: ‘o bater de asas de vinte centavos em São Paulo pode provocar um furacão social no resto do Brasil’. agora é manter as cabeças sobre os ombros. daqui a pouco voltam as guilhotinas. eu sou a favor, mesmo sabendo que a minha cabeça poderá ser uma das primeiras a rolar pelo asfalto revoltoso da Avenida Paulista. não tô nem aí. é pelo bem maior, não? minha cabeça não vale nem vinte centavos. tá na tabela do caos. vamos às ruas sermos solitários juntos. com ou sem cabeça. com ou sem vinte centavos. "
" aceita que eu não pertenço a esse tudo. que a plenitude são os olhos que me cegam. que nossa alma é a luz que vê o mundo. entende que a feira não me vende, negocia, financia ou empresta. engole que não presto. que sou o resto. que é só texto. eu não importo.
eu saio pela porta.
eu me basto. "
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Faz-se mar

Se eu pudesse, tornar-me-ia mar, de manhã, permaneceria gélida. Causando arrepios nos que ousassem invadir-me arrepios nos que permanecessem, estendidos, fitando-me em minha imensidão, arrepios das pontas dos dedos dos pés até o último fio de cabelo. Desconforto para os que desistissem de mim, virando as costas, fugindo. Dormência de satisfação aos que mergulhassem, sem hesitar, em meus braços. De tarde, permaneceria encantadora. Resgataria memórias de infância ao derrubar castelos de areia, apagar palavras escritas na areia, extinguir pegadas deixadas na areia. Contentar-me-ia com os raios do Sol, dar-te-ia, incessantemente, abraços e beijos. Deixar-te-ia saudades, provocar-te-ia lágrimas de tristeza , entregar-me-ia ao teu abraço quando em meu infinito encontraste-me. Rasgando teu conforto, descobrindo tua pele, envolvendo-te em imensidão. De noite, tornaria-me infinito. Fingiria ser labirinto a quem me contemplasse, refletiria em minha superfície o olhar de quem ama, a voz de quem me chama, o brilho da lua branda. Prenderia teu olhar, engoliria tua fala, roubaria teu sorriso, acalmaria tua mente, despertaria teus sentidos, renovaria tua alma (…) Encantaria. E, ao fim do dia, em tua boca, tornar-me-ia poesia.

Buarquices

(Source: buarquices, via reclusa)


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